• José Casanova

A arte da fuga
Chama-sefuga à composição musical que se caracteriza pela repetição sucessiva do mesmo tema com variações adaptadas à voz ou ao instrumento. Com rigor, pode dar-se o mesmo nome à prática dos executores da política de direita, ao longo dos anos: quando as graves consequências da política que praticam tornam iminente a derrota eleitoral, optam pela fuga... sendo substituídos por gémeos disfarçados de adversários, os quais adaptam essa mesma política às suas vozes, até à fuga seguinte. A arte da fuga tornou-se, assim, parte integrante da política de direita.
Vejamos alguns exemplos: Cavaco Silva, depois de ter feito de Portugal um «oásis» que ocupava o «pelotão da frente da União Europeia»... e perante a iminência de uma derrota eleitoral, recorreu à fuga: abandonou a chefia do PSD e passou a batata escaldante para as mãos de um dos seus pares (a quem viria a tirar o tapete no decorrer da campanha eleitoral).
Sucedeu-lhe António Guterres que repetiu o cavacal tema, convertendo o «oásis» em «paraíso» e introduzindo-lhe as adaptações da praxe. Foi o tempo da aplicação do peculiar conceito de «diálogo» guterrista: se os interlocutores do Governo, ou seja, os representantes dos trabalhadores, concordassem com as propostas governamentais, tudo bem, as ditas propostas seriam aplicadas; se não concordassem... tudo bem, na mesma, as ditas propostas seriam aplicadas na mesma. A fuga de Guterres ocorreu na tradicional sequência de uma derrota eleitoral – e fora antecedida, recorde-se, da fuga do ministro Vitorino, esta uma fuga em dois tempos: primeiro para elevados cargos numa multidão de empresas, depois, e ao que parece com carácter definitivo, para a Europa.
Chegou, então, a vez de Durão Barroso pegar no velho tema, de o ajeitar, simultaneamente, ao seu modo de ser e às maneiras de Paulo Portas, de conduzir Portugal à desgraça e à guerra e de, com isso tudo, proporcionar ao seu partido a maior derrota eleitoral de sempre – e de fugir, obviamente. Para a Europa, também.
Neste entretanto – e enquanto Ferro Rodrigues introduzia uma inovação no conceito de fuga com o abandono do cargo máximo do PS – Santana Lopes, embalado pelo PR e aplaudido pela noite, procedia às típicas adaptações ao velho tema da política de direita.
Santana: o mesmo que, aqui há uns tempos, comunicou solenemente ao mesmo PR, a sua decisão inabalável de abandonar a vida política. De fugir.


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