Durão arrisca-se a ser eleito por pouco mais de metade dos votos
Durão Barroso vai hoje a votos
As voltas do «camaleão»
Durão Barroso poderá ser hoje aceite pelo Parlamento Europeu para presidir à Comissão Europeia. Na semana passada, falou com os vários grupos e os ziguezagues do seu discurso valeram-lhe o cognome de «camaleão».
Após uma ronda de encontros com os vários grupos políticos do Parlamento Europeu, destinados a recolher apoios para a sua candidatura à presidência da Comissão Europeia, Durão Barroso foi apelidado pelo Finantial Times com o pouco abonatório cognome de «camaleão». Esta alcunha deve-se à «habilidade» revelada nos encontros efectuados com os diferentes grupos.
Candidato apontado pelos 25 governos da União Europeia, Barroso precisa dos votos da maioria dos 732 deputados do Parlamento Europeu para ser efectivamente eleito presidente da Comissão. A eleição realiza-se hoje em Bruxelas.
Tudo indica que o ex-primeiro-ministro português conseguirá ser eleito, pois tem há muito garantido o apoio do maior grupo parlamentar, o Partido Popular Europeu, com 279 deputados (do qual fazem parte os eleitos do PSD). Os liberais, com 88 deputados, e a União para a Europa das Nações (UEN), com 27, deverão também apoiar Durão Barroso.
Num primeiro momento, os liberais manifestaram dúvidas no seu sentido de voto e fizeram-no depender o voto favorável da aceitação pelo candidato de determinadas condições, nomeadamente da não existência de supercomissários. Mas no final da reunião que manteve com o candidato à presidência da Comissão, já o presidente do grupo liberal, Graham Watson, se afirmava «muito satisfeito» com Durão Barroso, realçando as semelhanças das visões de ambos relativamente à Europa. Quanto ao grupo de extrema-direita, a UEN, também já manifestou o seu apoio ao ex-governante português.
A grande dúvida reside no sentido de voto do grupo socialista, o segundo maior do PE, com 200 membros. Se os deputados do PS já afirmaram não inviabilizar a eleição de Barroso para a Comissão (por se tratar de «um português»), os restantes elementos do grupo ainda não tinham afirmado publicamente o seu sentido de voto.
Quanto aos grupos dos Verdes e da Esquerda Unitária Europeia/Esquerda Verde Nórdica (GUE/NGL), onde participa o PCP, não restam dúvidas, tendo ambos declarado já a sua oposição à escolha de Durão Barroso. E nem as reuniões que este teve com os deputados conseguiram alterar as suas posições.

Ziguezagues e oportunismos

A alcunha pouco dignificante de «camaleão» ganhou-a Durão Barroso do periódico económico, que notou a sua capacidade de «adaptação» do discurso aos diferentes interlocutores. Se perante os deputados do grupo dos Verdes, Barroso apresentou grandes preocupações ambientais, com os socialistas assumiu-se favorável à supremacia dos interesses sociais relativamente aos económicos. Tudo, diga-se em abono da verdade, causas que ninguém se lembra de alguma vez o ter visto defender ou praticar na sua vida política em Portugal.
No encontro com os liberais – que não esquecem o abandono do PSD do grupo, para se juntar ao PPE em 1996 –, Durão Barroso desculpou-se: «A nossa mudança foi uma questão táctica. O meu partido é de centro, não sou um conservador mas sim um reformista de centro.» Para tentar ganhar o apoio dos liberais, Durão Barroso realçou ainda a necessidade de fazer, «com os socialistas e os liberais que realmente acreditam na Europa, uma união de vontades».
Menos feliz para o ex-primeiro-ministro português foi o encontro com o GUE/NGL. Apostando na mesma estratégia de adaptação do discurso, Durão Barroso afirmou que procurará «fazer a ponte entre as várias posições»: entre os fundadores da UE e os novos países, entre a direita e a esquerda, entre os ricos e os pobres. Mas os deputados presentes conheciam-no bem e não esqueceram as suas posições relativamente à guerra do Iraque e a política neoliberal que praticou enquanto dirigiu os destinos de Portugal nos últimos dois anos e meio.


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