• Correia da Fonseca

Um catecismo nos <em>media</em>
Sobretudo de manhã, mas também em qualquer hora do dia, quem se disponha a ouvir o noticiário da TV (e também da rádio), por menos que o queira há-de deparar com as cotações bolsistas, as tendências para a alta (o «verde» ou o «vermelho» na gíria específica), as variações que parecem de dimensão microdecimal para quem não seja devoto daquela religião mas que, mesmo assim, podem talvez decidir a transferência de uns milhares de euros de uma algibeira para outra ou, dizendo-o com mais realismo, de uma para outra conta. E, contudo, dos milhões de cidadãos que em princípio constituem a potencial teleplateia, só uma ínfima percentagem estará interessada nesses dados, pois bem se sabe que a já caduca estória do «capitalismo popular» que visaria fazer de cada português um investidor bolsista, não deu em mais de um punhado de ilusões fatigadas e insignificantes. Temos, pois, que aquela regra que supostamente manda que as TV’s só forneçam aquilo que as maiorias mais desejam é completamente desrespeitada no caso das informações bolsistas. É curioso ou, dito de outro modo, é esquisito. Mas o que é esquisito não acontece por acaso, muito menos quando mete bolsas e cotações.
Além das tais informações, porém, há os programas especializados, alguns com título a evocar a Economia, outros não, mas todos a remeterem-se para uma espécie de desejável interessamento do grande público, o tal que «torce» muito pelos resultados da bola mas nada pelas acções da EDP, na «coisa bolsista». Na verdade, o filme informativo que a TV nos fornece está muito marcado pelo território bolsista e tudo quanto ele representa (um tipo de actividade, um tipo de reais ou supostas sabedorias, um tipo de economia, um tipo de sociedade), sem que, contudo, essa prestação venha responder a uma qualquer anterior preferência do telepúblico, como é de regra nas Cem Maneiras de Cozinhar uma Grelha Televisiva. Ora, lembrei-me de tudo isto quando, há dias, li um texto de Michel Abescat na «Télérama», revista francesa de matriz católica que, porque o é, estando por isso ao abrigo de suspeições que a tenham por marxista ou horror parecido, gosto de citar aqui. Escreveu Michel Abescat: «Escolhamos ao acaso. A crónica matinal de Jean-Marc Sylvestre na “France Inter, por exemplo. “A Economia Hoje”, assim se chama. De facto, uma espécie de boletim meteorológico dos mercados, um catecismo liberal apresentado como sendo a ordem natural das coisas, uma lei universal contra a qual seria tão estúpido resistir como recusar a Lei da Gravidade Universal ou a da Queda dos Corpos. A exemplo de numerosos confrades seus, nem pior nem melhor, Jean-Marc Sylvestre celebra assim, cada manhã, a imperiosa necessidade de desregulamentação, a urgência das privatizações, e evidente necessidade da baixa de impostos (empresariais) ou ainda a urgente necessidade de livre-câmbio. Em resumo, o horizonte inultrapassável da dura e justa Lei do Mercado, única política possível por todos os séculos dos séculos. Amen. (§) No tempo actual, é preciso que se oiça cantar os méritos da privatização programada da EDF, mesmo sendo os recursos eléctricos abundantes e menos caros que noutros lugares e a qualidade do serviço não colocando problemas em França. Duvidar do bom fundamento de uma tal medida seria “recusar a reforma” - entendida de uma maneira geral, como se nenhuma outra reforma além da liberal pudesse ser encarada. E, é claro, voltar costas à “modernidade” -, como se o universo mercantil se confundisse com ela.»

Liberalismo e cão de guarda

A sequência do artigo de Michel Abescat remete para um livro de Serge Halimi, jornalista do «Monde Diplomatique» e autor de um outro livro, «Les Chiens de Garde», em que acusa parte da imprensa e do jornalismo, franceses e não só, de se constituírem em «guarda de corpo» ideológica e propagandística a soldo do grande capital. Na obra publicada, que ostenta o subtítulo de «Como a ordem liberal se impõe no mundo», Hamili demonstra, segundo Abescat, que «longe de serem naturais, os preceitos liberais são a expressão de uma vontade, o fruto de uma construção política e ideológica» impostos à opinião pública pelos media como se fossem os únicos possíveis. Passando da realidade francesa para a portuguesa, é fácil perceber que o processo mistificatório é o mesmo, e que vai seguindo o seu caminho nas lusitanas cabecinhas, sem oposição, no fundamental campo de batalha cultural/ideológico. Porque há muitos anos que a universidade portuguesa não forma economistas que não seja pelo modelo único de construção. E também, talvez, porque a esquerda anda empenhada apenas noutros combates.


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