• Pedro Guerreiro

Comentário
Os aplausos e as preocupações do grande capital
Quem tem acompanhado as recentes tomadas de posição da UNICE (1) (confederação do grande patronato na Europa) constata o quanto esta organização - porta-voz do grande capital -, tem aplaudido as recentes decisões tomadas pelo Conselho Europeu, com destaque para o acordo em torno do conteúdo da denominada «constituição europeia» e para a nomeação de Durão Barroso para Presidente da futura Comissão Europeia.
Num dos seus inúmeros comunicados (2), a UNICE aplaude e congratula-se com a escolha de Durão Barroso, salientando e valorizando as políticas de direita que o Governo PSD/CDS-PP realiza em Portugal, destacando o seu empenhamento no cumprimento estrito das regras do Pacto de Estabilidade, ou seja, a redução dos salários reais, a continua precarização das pensões, a redução de prestações sociais, a venda ao desbarato do património do Estado, de que são exemplo as privatizações das empresas públicas - que ficam sob domínio da capital estrangeiro -, o desinvestimento na educação e na saúde e a sua progressiva privatização, o aumento das desigualdades sociais e o aprofundamento da injustiça na distribuição do rendimento nacional.
Entusiasmada, a UNICE chama a Durão Barroso, o «presidente de Lisboa», sublinhando que foi durante a presidência portuguesa do Conselho, em 2000 (exercida pelo Governo PS/Guterres), que foi definida e adoptada a denominada «Estratégia de Lisboa». Afirmando que caberá a Durão Barroso, como sua primeira prioridade, realizar esta «estratégia» que aponta a precarização dos direitos dos trabalhadores, a liberalização dos serviços públicos e a progressiva privatização dos sistemas públicos de pensões. Obviamente com o total apoio e a cooperação da UNICE, que se prontifica para um encontro com Durão Barroso logo que possível.
A UNICE está segura da escolha dos grandes da União Europeia. Durão Barroso dará resposta aos interesses do grande capital - aquém e além Atlântico - na Comissão Europeia, tal como o fez em Portugal.

Gato por lebre

Quando aplaudia a escolha de Durão Barroso, já a UNICE tinha as mãos a escaldar de tanto aplaudir a adopção pelo Conselho Europeu da denominada «constituição europeia» (3).
Para a UNICE - tornando clara a sua linguagem carregada de eufemismos -, a «constituição europeia» assegura a base e os meios para o reforço do capitalismo na União Europeia e para a concorrência/concertação deste com os outros pólos do capitalismo, nomeadamente os EUA, ou seja: o aprofundamento do federalismo sob o domínio dos grandes, a reafirmação e institucionalização das políticas neoliberais e a militarização da União Europeia.
Mas a UNICE está preocupada. Aliás tem razões para isso... É que os ingratos dos povos dos diferentes países não demonstram ter interesse pela União Europeia, como o demonstra o crescente abstencionismo verificado nas eleições para o Parlamento Europeu - com especial significado em alguns dos países que acabaram de aderir (4).
A UNICE teme que a denominada «constituição europeia» seja derrotada em referendos nacionais (5). Ainda está bem vivo na memória o NÃO do povo sueco à adesão do seu país à União Económica e Monetária, ou seja, ao euro. Por isso aponta como urgente a definição de uma «estratégia de comunicação», ou seja, de uma grande campanha de propaganda, procurando vender «gato por lebre».
Como que por «acaso», no dia 9 de Julho, o presidente do Parlamento Europeu, o presidente da Comissão Europeia, o presidente do Comité das Regiões e o Comissário António Vitorino lançam um apelo dirigido aos «eleitos» para que «apresentem» e «expliquem» a Constituição Europeia, ou seja, para que vendam «gato por lebre».
Temos pois uma grande batalha política pela frente. Uma batalha política de esclarecimento, de denúncia e de desmistificação do real conteúdo de classe da denominada «constituição europeia» - de que o apoio de classe da UNICE é apenas uma das evidências. Uma batalha política de afirmação do projecto do PCP para Portugal e para a Europa.
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(1) www.unice.org
(2) Comunicado de 30 de Junho.
(3) Comunicado de 21 de Junho.
(4) Alguns exemplos de percentagens de abstenção: Hungria 61%, República Checa 72%, Eslovénia 72%, Estónia 73%, Polónia 79%, Eslováquia 83%.
(5) Neste momento, está apontada a realização de referendos nacionais na Dinamarca, Irlanda, Espanha, Grã-bretanha e parece que Portugal..., independentemente das formas jurídicas que venham a tomar, nomeadamente, incluindo a possibilidade da realização de «fantochadas» diversas.



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