• Correia da Fonseca

Notícias de Michael Moore
O mundo conheceu Michael Moore quando, numa distribuição de Óscares em que foi premiado, ele fez perante as câmaras de TV a veemente denúncia de George W. Bush e, naturalmente, da sua política de guerra. O filme galardoado era então o documentário «Bowling for Columbine», um libelo contra o que pode designar-se por «armamentismo interno», fenómeno tipicamente norte-americano que tem como resultado o recorde mundial de homicídios. Porém, era claro das suas palavras que a visão de Moore não se limita ao que acontece no interior dos próprios States, embora sempre tenha a responsabilidade norte-americana como raiz. Agora, depois da Palma de Ouro em Cannes para «Fahrenheit 9/11», Michael Moore surgiu com um prestígio e uma força que reforçam o medo que os círculos dos Estados Unidos têm da sua actividade, o que designadamente levou a uma tentativa para impedir que o filme premiado em Cannes fosse exibido nos circuitos norte-americanos com expressão comercial interessante. O boicote falhou: é esclarecedor que o filme se tenha estreado com a antecipação de dois dias em duas salas de Nova Iorque que com ele bateram o seu recorde absoluto de audiência. Depois disso, em vários lugares da cidade, desde Times Square a East Village, o êxito de bilheteira é total, e é sabido como o sucesso comercial é importante para o prestígio de um trabalho junto da opinião pública USA. Entretanto, as entrevistas na televisão multiplicam-se. Uma delas integrou o «60 Minutos» que a SIC-Notícias transmitiu no passado domingo, o que, se tanto fosse preciso, justifica que voltemos a falar nesta coluna de Michael Moore e de «Fahrenheit 9/11».
Escrevi «entrevista», melhor teria feito se tivesse escrito «documentário integrando excertos de uma entrevista à CBS». E aconteceu mesmo que um pormenor dessa entrevista me pareceu especialmente significativo e, portanto, a justificar o registo. É que o entrevistador se mostrou surpreendido por Michael Moore ser «um revoltado» apesar de ter tido uma infância feliz. No espanto que o jornalista exprimiu, e que me parece, ele sim, espantoso, creio reflectir-se uma espécie de recurso pré-primário a uma explicação decorrente de uma psicanálise tosca, e também um preconceito hiperindividualista: quem teve uma infância feliz não tem nada que interessar-se pela sorte dos outros, que indignar-se, que olhar o resto do mundo. De qualquer modo, o caso é que o «revoltado» Moore é um vencedor e também um bom negócio mediático. De onde a sua presença em entrevistas televisivas frequentes: gera audiências, e bem sabemos que essa é uma razão decisiva para os convites.

Censuras/Cumplicidades

A par do boicote tentado à exibição, houve algumas tentativas para desvalorizar o mérito de «Fahrenheit 9/11» aos olhos do público, mas também nesse aspecto a direita bushiana perdeu. Jonathan Rosenbaum, figura destacada da crítica norte-americana, chega a comparar o filme a «O Ditador» de Chaplin, o que pode ser excessivo mas é sem dúvida um indicador importante. Daqui resulta, naturalmente, que as palavras com que Michael Moore denuncia, no decurso de entrevistas na TV, a criminosa autocensura que os media USA, com destaque para a própria televisão, praticaram relativamente à invasão do Iraque, assim se tornando cúmplice por omissão do belicismo de Bush e dos crimes de guerra que dele derivaram, ganharam um acrescido poder de esclarecimento e de convencimento junto da opinião pública. Isto não significa que o filme e a acção pessoal de Moore possam vir a ser um factor significativo para o desfecho das próximas eleições presidenciais de 2 de Novembro: bem se sabe que nas eleições americanas há outras forças, outras maneiras, e a subida de George W. Bush ao poder é, quanto a isso, um exemplo notável. Mas quando, perante milhões de telespectadores, Michael Moore invectiva as cadeias de TV com palavras claras («com «Fahrenheit 9/11 eu peço humildemente que façam o vosso trabalho!», disse ele numa outra entrevista à CBS), estamos perante um aviso lançado aos senhores dos media: os cidadãos estão a dar-se conta de uma constante censura interna que se interpõe entre eles e a verdade. E, digamo-lo porque estamos a falar dos Estados Unidos, essa consciência pode ter consequências financeiras para o negócio mediático.
Entretanto, por cá, neste cantinho tranquilo e tão cuidadosamente «estabilizado» por quem de direito, ainda não se ouviu na TV a voz de nenhum Michael Moore. Fico a pensar em quanta falta faz.


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