• Correia da Fonseca

A arma e a espera
Foi na passada noite de 24 que a RTP ou, como estará mais na moda dizer-se e grafar-se, a «2:», transmitiu um programa em que se ouviram algumas canções de Abril ou que com Abril alguma coisa tiveram. Uma delas, na voz de Samuel, foi a que lembra, até no título, que «a canção é uma arma». Ouvi-a com alguma surpresa: não esperava que a também muito revolucionária RTP se lembrasse e quisesse lembrar-nos canções tão directamente evocadoras de um tempo e de um dia tão pouco agradáveis no seio do governo que levam um ministério do Estado a mascar nervosamente «chewing gum» em plena bancada do Poder, quando não a recolher a casa com gripe. É certo que à «2:» pode confiar-se, digamos, alguns segredos, pois o que ali é dito ou cantado, e por isso transmitido, quase fica circunscrito a uma espécie de círculo de amigos cujos gostos obsoletos continuam ancorados em coisas tão ultrapassadas como a cultura, a informação um pouco mais informativa que a fornecida por outros canais e o 25 de Abril. Além de que a emblemática «A cantiga é uma arma» não é de nenhum autor do PCP ou com ele conotável, mérito este que não é irrelevante. O certo é que ouvi-la não apenas me remeteu para reflexões nostálgicas, o que seria muito pouco, mas também estimulou a minha atenção para a actualidade. Concretamente, voltei a pensar em como nos faz falta, hoje, que desta opressão, que direi mansa porque sem a assumida brutalidade do 24, se levantem vozes, várias vozes, num canto de inconformidade e denúncia deste tempo de asfixia, de cloroformização envenenada, de quotidianas violências sem o sangue de outrora mas já com a mesma ou semelhante fome, e não apenas de pão mas também de justiça e já de liberdade. E quem acerca deste último ponto tiver dúvidas vá tirá-las junto dos trabalhadores que se sindicalizaram correndo o risco de desemprego, dos que todos os dias são roubados porque obrigados a prolongar o tempo de trabalho muito para lá do horário e sem qualquer pagamento por isso, dos jornalistas que têm de optar por uma cada vez mais apertada autocensura para manterem um posto de trabalho cada vez mais precioso num sector de trabalho caracterizado por uma oferta de mão-de-obra crescentemente inflacionada.

O canto como resposta

Aconteceu, pois, que ao ouvir Samuel cantar que «a canção é uma arma» voltei a ser revisitado por uma perplexidade que me vem tocando com cada vez maior frequência: por que é que deste povo de novo oprimido, de novo amordaçado, embora com formas de opressão e mordaça mais «soft», mais evolucionárias, não se levantam contos e indignação que acordem os dorminhocos e mobilizem a lucidez. Num segundo tempo, porém, reflecti que talvez afinal os haja, ou vá havendo, e seja eu que não os oiço porque vejo muita televisão, algum rádio, e pouco tempo me sobra para o resto da vida, que é larga. A ser assim, porém, as circunstâncias apontariam para o regresso de velhas censuras nos media audiovisuais, pelo menos nesses, que quanto à imprensa serão contas de outro rosário além de não ser propriamente habitual que os jornais nos cantem trovas ao vento que passa. O caso é que eu bem vejo e bem oiço o género de cantigas que as estações de TV todos os dias, mas todos, me metem em casa, e já nem estou a pensar no Quim Barreiros que hoje mesmo, num programa da tarde, faz da sua música contraponto ao matraquear do teclado que os meus dedos tocam. É que, embora a alguns custe a crer, o Quim Barreiros ainda tem mais qualidade do que muitos outros, cançoneteiros a solo ou em conjunto de dois ou três. Quanto a produtos de melhor qualidade, e já nem estou agora com exigências de intervenção social, só se um autor/intérprete já com firmado currículo publicar um novo disco cujo eficaz lançamento muito convém à discográfica editora. Isto é: a excepção então havida tem tudo a ver, uma vez mais, com interesses de mercado, não com quaisquer outras razões.
Entretanto, agora que já não oiço o Samuel nem outro como ele desde a passada noite de 24, fico um pouco à espera que novos cantos de recusa e chamadas à resistência se levantem em resposta à sementeira de infâmias sortidas que vai caindo de norte a sul do País. Eu bem sei que as cantigas de lucidez, civismo e coragem, não nasceram nas décadas de 60 e 70, apenas então se intensificaram, e que sempre regressam sob o peso das tiranias, mesmo quando estas sejam de fachada democrática. Por isso, repito, fico à espera. Elas virão, e de algum modo hão-se chegar-me aos ouvidos. Talvez até, quem sabe?, ao sangue que as palavras terão aquecido.


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