Os Dias Levantados

Manuel Augusto Araújo

Nós temos necessidade da história, mas temos necessidade dela de um modo muito diferente daquele que necessita o desocupado insensível no jardim do saber.
Nietzsche, Da Utilidade e do Inconveniente da História
Opção fundamental na estruturação da ópera «Os Dias Levantados» foi a de não nomear protagonistas. António Pinho Vargas refere que «para todas as personagens históricas, na minha perspectiva, não há distância, não havia para mim distância suficiente para que isso fosse possível e por outro lado pelo facto de ter sido um conjunto de acontecimentos muito complexo, e que transformou e abalou a sociedade portuguesa de alto a baixo» (1),
Assumida essa opção, é a Revolução do 25 de Abril que se torna no protagonista como lugar de luta entre o futuro e o passado, na multiplicidade de personagens que não se tipificam enquanto figuras, mas surgem como vozes que falam dos momentos que estão a ser vividos e que estão a fazer história. «O 25 de Abril é um dia e são dias, meses, anos. É daquelas datas que estão antes de hoje, que hoje ecoam ainda, e que tremeluzirão no depois de hoje como outra possibilidade no conflito dos possíveis reais. Porque foi um processo de irrupção de imensas vozes e corpos no teatro da história tal como a fazemos. Porque foi um processo de transformação do espaço-tempo do nosso lugar e das formas do habitar. Porque foi a liberdade e a democracia como emancipação. Porque foi a política como poiesis (2)
É a história de um tempo de revolução, porque a revolução é a matéria essencial desta ópera que encontra nas «Teses sobre a Filosofia da História», de Walter Benjamin, a substância que a alimenta, em plano de fundo, tanto a escrita musical como a escrita poética se vertem na «impureza» musical, na multivocalidade social, seja nos coros seja nas vozes individuadas, seja ainda nas personagens que têm nome: o Anjo da História e o Anjo Camponês, figurantes intemporais desse tempo que vive «a consciência de fazer explodir a continuidade da história é própria das classes revolucionárias no momento da acção. A grande revolução introduziu um novo calendário. O dia em que começa o novo calendário funciona como um compilador histórico do tempo. E é no fundo, o mesmo dia que volta sempre sob a forma de dias de festa, os quais são de comemoração. Pode dizer-se que os calendários não contam o tempo como os relógios» (3). Anjos inventados, o da História por Walter Benjamin a partir de um quadro de Paul Klee (4) e que vive enquanto vivam os humanos tecendo os fios da história, e o Camponês por Carlos Oliveira a partir da Guernica de Picasso (5) e que é mortal e vive connosco com a nossa capacidade de agir e compreender ou incompreender o que nos é dado ver. Anjos que nos revelam, descrevendo ou comentando, os dias levantados dos meses de abril, que acontecem no palco e no palco do registo fonográfico, que convocam as vozes do passado e as do futuro e as que são citadas. Figuras omnipresentes nesta ópera sem protagonistas porque todos somos protagonistas, por vontade própria ou contra vontade, nesse encontro com a realidade concreta desse tempo fora dos eixos que é, sem que o pareça e sem recorrências a nenhum típico vulgar como seria, por exemplo, reconstituir o quartel da Pontinha, o quartel do Carmo ou o Terreiro do Paço, minuciosamente descrito nas cinco partes da ópera.
Estamos perante uma ópera que aborda esse período da nossa história próxima de modo inteligente e prodigioso, em que o textualidade da música e do poema constroem um objecto excepcional, com momentos inesquecíveis como o céu aberto pelo 25 de Abril é inesquecível porque ninguém pode fechar o céu aberto.

Os Dias Levantados de António Pinho Vargas, libreto Manuel Gusmão
Ana Ester Neves, Nicolau Domingues, Jorge Vaz de Carvalho, Luís Rodrigues, Ana Paula Russo, Carlos Guilherme/ Coro do Teatro de S. Carlos / Orquestra Sinfónica Portuguesa / direcção musical João Paulo Santos. EMI( 2 cd’s)


(1)António Pinho Vargas, no Programa
(2)Manuel Gusmão, idem
(3)Tese XV, Teses sobre a Filosofia da História, Walter Benjamim, em Sobre Arte, Técnica, Linguagem e Política, ed. Relógio d’Água,1992
(4)«Existe um quadro de Klee que se intitula Angelus Novus. Representa um anjo que parece preparar-se para se afastar do local em que se mantém imóvel. Os seus olhos estão escancarados, a boca está aberta, as asas desfraldadas. Tal é o aspecto que necessariamente deve ter o anjo da história. O seu rosto está voltado para o passado. Ali onde para nós parece haver uma cadeia de acontecimentos, ele vê apenas uma única e só catástrofe, que não pára de amontoar ruínas sobre ruínas e as lança a seus pés. Ele quereria ficar, despertar os mortos e reunir os vencidos. Mas do paraíso sopra uma tempestade que se apodera das suas asas, e é tão forte que o anjo não é capaz de voltar a fechá-las. Essa tempestade impele-o incessantemente para o futuro ao qual volta as costas, enquanto diante dele e até ao céu se acumulam ruínas. Essa tempestade é aquilo a que nós chamamos progresso» Tese IX, idem
(5) Entra pela janela / o anjo camponês; / com a terceira luz na mão; / minucioso, habituado / aos interiores de cereal, / aos utensílios / que dormem na fuligem; / os seus olhos rurais / não compreendem bem os símbolos / desta colheita: hélices, / motores furiosos; / e estende mais o braço; planta/no ar, como uma árvore, / a chama do candeeiro.(…) Descrição da guerra em Guernica, Carlos Oliveira em Cristal em Sória, Obras de Carlos Oliveira, Editorial Caminho,1992


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