• Francisco Silva

Efeito da hiperrealidade!
Mastigar e engolir, andar, coçar-se, falar a língua materna, ou falar, ler, mesmo conduzir o automóvel, são tudo actos de que, quase sempre, nem nos damos conta que os vamos realizando ou, pelo menos, da forma e detalhes práticos de como os realizamos. Treinado eu, que pratiquei bastante, com extrema regularidade, a esgrima, acontecia-me ser o que me saia melhor aquilo que só me dava conta de o ter «preparado na cabeça» quando já tinha acontecido. Automático. De facto, uma boa parte do que fazemos «acontece-nos» de forma automática ou, para o dizer de outro modo, de uma forma não consciente.
Nessa boa parte do que fazemos de forma automática inclui-se uma percentagem importante das rotinas desempenhadas em quase simbiose com os nossos companheiros tecnológicos. Acontece isto não apenas com o conduzir dos automóveis ou com a utilização dos talheres a que estamos habituados - mas não acontece, pelo menos a mim, com os pauzinhos chineses, cuja utilização sempre a faço de forma muito consciente devido a minha habilitação para a sua prática ser bastante deficiente e, por isso, não me permitir entrar, neste particular, em fase de automatização -, ou com a espada da esgrima, mas ainda com toda uma série de artefactos da área electrodoméstica e, em particular, da área das comunicações.
Assim, da mesma forma que acender e apagar luzes num local que me seja familiar, por em marcha ou terminar os processos das máquinas de lavar roupa ou loiça que conheço, dos aspiradores mais simples, das máquinas de fazer cafés, do mesmo modo como telefonar, fazer zapping, utilizar sem muito detalhe o processamento de texto a que estou habituado, vogar pelo ciberespaço, em particular pelas zonas onde estou mais familiarizado, são actividades desempenhadas quase sempre sem ter de apelar de para a minha consciência.
Em particular, a electricidade - que invadiu passo a passo as nossas vidas e se constituiu num dos maiores sucessos tecnológicos de todos os tempos - quase desapareceu da nossa consciência. Por vezes ela reaparece-nos, é certo. Ou porque damos com o Posto de Transformação que continua a desfear no mesmo sítio a praceta onde habitamos, não obstante o seu recente rearranjo paisagístico. Ou porque apanhamos um choque eléctrico. Ou porque disparou o disjuntor de casa. Ou pela súbita visão das gigantescas linhas de transporte de energia eléctrica atravessando os campos enquanto percorremos a auto-estrada num ápice. Mas a electricidade, tal como veio à superfície da nossa consciência, assim volta a desaparecer. Já nem os sinalizadores luminosos dos equipamentos, nem os discretos interruptores, ou o quadro eléctrico disfarçado com uma gravura no seu tampo, nos conseguem fazer trazer a electricidade à consciência. Quando muito vamo-nos apercebendo da electricidade de forma indirecta, pelo que vai aportando ao nosso quotidiano: luz, imagens, sons, notícias, calor, a brisa do condicionado, conservação de alimentos, fabricação de produtos, TGVs, a comunicação…
Isso, a comunicação e os meios de comunicação. Mas também estes estão cada vez mais disfarçados. Os traçados aéreos de fios nus e cabos telefónicos quase desapareceram da nossa vista, em particular nas zonas urbanas. Os telefones, pequenos e quase ausentes. Os telemóveis levam uma existência física discreta depois de já terem tido, por algum – pouco – tempo, antes da sua banalização, alguma posição na estética e estatuto dos seus portadores. Nalgumas empresas, ainda havia os matacões dos teleimpressores. Os mais pequenos aparelhos de fax também se vão sumindo. O Ciberespaço traduz-se em ecrãs pequenos cheios de letras e palavras, imagens, ícones, e em teclados e ratos, altifalantes, quase invisíveis. Apenas – nos nossos dias – dão ainda um ar da sua graça aqueles modernos combinados de auscultador e microfone, colocados na cabeça de forma a permitirem-nos a liberdade das mãos para a sua discreta dedilhação de teclados. Os restos.
De que te queixas? Quase não se dá pela presença das comunicações? Não tem mal, mas não é verdade. Então e os satélites? Não constituem as suas antenas uma actuante presença nas nossas consciências? E as fibras ópticas com as suas imagens tão bem iluminadas nas extremidades? (Eu a pensar: «nos sistemas reais o comprimento de onda de trabalho origina sinais que não são visíveis») E os lasers, com toda a sua espectacularidade luminosa nos eventos de massas e destrutiva nas armas da ficção científica.
Ah, é isso! A consciência da tangibilidade e da realidade só pode ser proporcionada pela hiperrealidade mediática. Pois é.


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