• Rui Namorado Rosa

A destruição de Bagdad
Durante meses a fio fora-nos anunciado que o «mau ditador» teria armas perigosíssimas, para que estivéssemos mentalizados para «aceitar» que o «bom ditador» fizesse uso das suas. Estas foram-nos ditas serem «inteligentes» («smart»), precisas, cirúrgicas, «limpas». São na realidade armas de destruição maciça seja qual for a definição que se adopte. Assistimos à destruição maciça de Bagdad pelas novíssimas armas dos arsenais dos EUA. Babilónia sucumbe às bombas, muitas bombas. Os Sumérios e os Caldeus descobriram e transmitiram-nos muitos ensinamentos, mas bombas não, temos nós que explicar.
Bombas são cargas explosivas encapsuladas num invólucro de aço, dotadas de um detonador e de asas aerodinâmicas (para controlo da queda ou voo). As bombas de «utilização geral» comportam uma massa de explosivo que é cerca de metade a massa da bomba; os seus efeitos combinam a onda de choque com a projecção de fragmentos; este tipo de bomba foi o mais largamente utilizado na primeira Guerra do Golfo. As «bombas de fragmentação» contêm até 20% da sua massa de explosivo; os danos são produzidos sobretudo pelos fragmentos projectados. «Cluster bombs» são bombas de fragmentação especializadas, que projectam sub-munições tais como granadas, minas, etc. de modo a atingir finalidades específicas mais letais ou retardadas (CBU-87 é a principal arma deste tipo no arsenal norte-americano).
As «bombas de perfurantes ou de profundidade» contêm de 25% a 30% da sua massa de explosivo e têm configuração alongada para aumentar a capacidade de perfuração de alvos; a energia para o efeito é a energia cinética (a velocidade várias vezes supersónica). O seu desenvolvimento tem sido «justificado» pelo objectivo de atingir tenebrosas instalações subterrâneas onde estariam alojadas fábricas ou armazenadas armas químicas e biológicas.
«Bombas sujas» serão bombas com carga explosiva convencional cujo propósito é a dispersão de substâncias radioactivas; o seu efeito faz-se sentir no imediato e a prazo, quando a acumulação no organismo humano de substâncias tóxicas e radioactivas ou de doses de radiação ionizante provoca alterações conducentes a doenças, sobretudo cancro e alterações genéticas transmissíveis hereditariamente. O termo foi introduzido em cenários de ataques terroristas e a sua exploração mediática tem servido o propósito de condicionamento psicológico do próprio povo norte-americano, tendo em vista alimentar uma opinião pública favorável ao conceito de «guerra preventiva».

Armas de destruição maciça

As mentiras são muitas (a título de «contra-informação» em tempo de guerra). Mas as imagens aterradoras das noites iraquianas revelam, em vista da cor das explosões e da dimensão e projecção vertical das colunas de poeira, que foram utilizadas potentíssimas e novas armas, não só bombas de utilização geral, mas também bombas de fragmentação e «cluster bombs», bombas FAE, bombas MOAB, bombas sujas, bombas de profundidade e possivelmente outras - lançadas por gravidade ou como ogivas de mísseis – que são realmente armas de destruição maciça, algumas formalmente ilegais e outras, de tão recentes, ainda não classificadas como tal.
As «bombas de fragmentação», são evidentemente destinada a matar e não a destruir. E o seu «aperfeiçoamento» tem prosseguido. A versão JSOW, é uma «cluster bomb» desenvolvida conjuntamente para a Força Aérea e a Armada; tem 500 kg e cerca de 4 metros de comprimento, transportando 145 pequenas bombas incendiárias que são ejectadas a 100 metros de altitude para se dispersarem sobre uma superfície com um hectare de área; foi testada «ao vivo» no Iraque em 25 de Janeiro de 1999; em 16 Fevereiro foram lançadas várias dezenas sobre o que foi afirmado serem instalações militares na «zona de exclusão aérea».
EPW – Earth Penetrating Warheads são projécteis (ogivas, granadas ou bombas) com capacidade de penetração no solo para só depois explodirem. A desaceleração do projéctil enquanto penetra o solo é tão rápida que a perfuração não tem grande alcance, porém a explosão no subsolo transmite muito mais energia ao solo e a onda de choque neste tem poder destrutivo a considerável distância e profundidade. Aumentar a profundidade requer aumentar a velocidade do projéctil no impacto; essa velocidade está limitada pela resistência da cabeça do projéctil para que mantenha a sua integridade; para aço duro sobre betão, a velocidade máxima será três vezes a velocidade do som, velocidade a que a distância percorrida no solo será quatro vezes o comprimento do projéctil.
Actualmente, os EUA têm operacionais duas bombas EPW com carga convencional, as GBU-28 e GBU-37; com forma tubular, o comprimento doze vezes o diâmetro (350 mm), têm 2 toneladas de massa, da qual 300 kg de explosivo; lançadas de avião, por gravidade adquirem energia cinética suficiente para atravessarem 30 metros de solo; ambas dispõem de um dispositivo de navegação com seu microprocessador e actuadores que movem palas aerodinâmicas tendo em vista «conduzir» a bomba para o alvo fixado; a diferença entre as duas é que a primeira é guiada com o auxílio de um feixe de luz laser e a segunda por um controlador de posição GPS.
As EPW portadores de carga nuclear serão extremamente perigosas. A profundidade a que uma tal explosão deveria dar-se para prevenir a libertação para a atmosfera dos produtos de cisão radioactivos é muito superior à profundidade que qualquer projéctil possa atingir; uma tal EPW produzirá uma cratera e lançará para a atmosfera grande massa de rocha, poeira, vapor e produtos radioactivos. Ora os EUA dispõem de bombas EPW com cargas nucleares, as B61-11, desenvolvidas ainda ao tempo da primeira Guerra do Golfo e tornadas operacionais em 1997.

Armas «sujas»

Os projecteis de «urânio empobrecido», desenvolvidos na década de 1970 e que vieram a entrar no campo de batalha na primeira Guerra do Golfo em 1991, são de facto do tipo «bombas sujas», armas químicas e radiológicas; armas ambientais também, pois têm a prazo incidência sobre as populações residentes nos territórios contaminados. As munições de urânio penetram mais de um metro no solo e aí ficam não detectáveis no imediato até que a sua oxidação e dissolução contaminará o solo e a água; sobre um alvo duro o impacto dá origem a uma explosão pirofórica que gera uma nuvem de aerossol radioactivo que funciona como arma química e radiológica. O perigo do urânio é agravado pelo facto de este estar acompanhado por vestígios de outras substâncias, algumas delas, como o plutónio, ainda muito mais nocivas. O urânio empobrecido é também utilizado nos mísseis Tomahawk e de cruzeiro com a «justificação» de, pela sua muito elevada densidade, ser o material adequado para dispositivos de estabilização do voo.
Não obstante a forte contra-informação da NATO, das autoridades dos EUA e de vários dos seus aliados, e mesmo da EURATOM (órgão da União Europeia), os estudos feitos pela Organização Mundial de Saúde e pelo Programa das Nações Unidas para o Ambiente, bem como outros estudos de instituições independentes e declarações de sociedades científicas, aberta ou «diplomaticamente» confirmaram os efeitos nefastos já produzidos e os riscos pendentes sobre as populações nas áreas afectadas no Iraque e na ex-Jugoslávia. Os seus efeitos são conhecidos pelos ex-combatentes das tropas agressoras como «sindroma do Golfo» e «sindroma dos Balcãs» cuja origem é porém oficialmente «desconhecida». Nos territórios afectados, sobretudo no Iraque, onde foram lançadas 300 a 800 toneladas de urânio, é conhecida a degradação ambiental e os gravíssimos problemas de saúde pública daí decorrentes.
As «Bombas explosivas de ar-fuel» (FAE) ou termobáricas foram desenvolvidas na década de 1960 pelos EUA e utilizadas no Vietname tendo em vista destruir abrigos subterrâneos e desflorestar o terreno. Foram «aperfeiçoadas» e de novo utilizadas sobre tropas entrincheiradas e sobre campos de minas na Guerra do Golfo. Este tipo de bomba consiste num contentor com uma substância volátil e em duas cargas explosivas; a primeira carga, quando é despoletada a certa altitude, produz a dispersão da substância volátil gerando uma ampla nuvem de aerossol; a segunda carga explosiva produz, depois, a detonação da mistura ar - aerossol. Forma uma enorme e fulgurante bola de fogo e uma intensíssima onda de choque. Estruturas, árvores e pessoas sob essa bola de fogo são imediatamente esmagadas; a onda de choque propaga-se a uma velocidade várias vezes supersónica e gera à retaguarda uma forte depressão sendo altamente destrutiva também. Pelo poder destrutivo, é comparável a uma munição nuclear de baixa potência mas sem gerar resíduos radioactivos. Por outro lado, quando a segunda carga não detonar ou não for accionada, a nuvem de aerossol é altamente tóxica e resultará tão letal como uma arma química. As FAE sobrepõem-se em alguns aspectos com as armas nucleares tácticas e com as armas químicas, pelo que a sua utilização deveria ser objecto de renúncia pela comunidade internacional.
O conceito de MOAB (Massive Ordnance Air Blast) surgiu recentemente. É a maior bomba convencional no arsenal norte-americano, com 10 toneladas, guiada via satélite, cuja detonação é tão potente que origina a ascensão de uma coluna de gás e poeira com semelhança à de uma explosão nuclear. Testada no início deste mês de Março, poderá estar já disponível para a ser utilizada nesta segunda Guerra do Golfo.
A intensificação da inovação e da renovação dos arsenais militares, verificada nos últimos cinco anos, conduziu à recuperação de conceitos antigos, antes descartados por escrúpulo moral e pressão da opinião pública, e à invenção de novas armas, ainda mais terríveis do que as já conhecidas. A indústria armamentista, irmã gémea da indústria petrolífera, tem tirado enorme proveito desta renovada «corrida» aos armamentos.


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