Retratos do trabalho - 5

Pedro Faroia,
funcionário dos CTT

O robô humano

Pedro Faroia não sabe qual é a sua profissão, porque «ESE não é nada». Por isso, é apenas funcionário dos Correios. ESE é a abreviatura de Empregado de Serviços Elementares, a categoria profissional mais baixa dos CTT. O salário base ronda os 400 euros, mas, graças aos subsídios, recebe cerca de 600 euros por mês. Grande parte do ordenado vai para os custos de frequência do curso de Economia que Pedro espera concluir no próximo ano na Universidade Independente.

Pedro, de 27 anos, trabalha na central de tratamento de correspondência de Cabo Ruivo, em Lisboa. Os turnos são rotativos. Na semana passada entrava à meia-noite e saía às oito da manhã. Nenhuma semana é igual e o plano só é fixado na quarta-feira anterior. Isto significa que, além de não poder planear antecipadamente a sua vida, Pedro é obrigado a faltar às aulas quando não consegue trocar de turno com um colega. «Às vezes falto semanas inteiras. Aprendo muito mais numa aula do que num dia inteiro a ler os apontamentos de outros.»

É com alguma dificuldade que Pedro vai conciliando o trabalho com a universidade. «Ainda por cima é um trabalho cansativo», comenta. Em geral, o estudo fica para o fim-de-semana e muitas vezes acaba por deixar acumular as matérias para as épocas de frequência. Só de mensalidade, paga 200 euros por mês. «Fora as fotocópias, os livros, comer qualquer coisita… É chapa ganha, chapa gasta. Somos mal pagos. Em França ganham três vezes o nosso salário e, em Espanha, quem trabalha só ao fim-de-semana recebe o mesmo ordenado que nós», conta.

A discoteca

Pedro começou a trabalhar nos CTT em 1998, durante as férias da escola. O primeiro contrato foi de dois meses, em part-time. Nessa altura passava quatro horas por dia a abrir sacos cheios de envelopes. Entretanto, os contratos foram-se multiplicando, alguns com a Adeco, uma empresa de trabalho temporário. «Fazia dois contratos, depois estava em casa às vezes dois dias, às vezes seis meses… Isso durante quatro anos. Ainda ia tentando arranjar outros empregos, mas depois os CTT voltavam a chamar.» No total foram sete os contratos assinados, a maioria de seis meses.

«Fiz de tudo ali», garante. Já esteve no sector do correio prioritário, da correspondência fina, do correio internacional e das cargas e descargas. Já fez os fechos para os aviões, dividiu o correio por países, ensacou correspondência, fez registos. Actualmente está na vídeocodificação e na mecanização.

Cerca de 85 por cento do tráfego postal é dividido mecanicamente. As cartas são introduzidas na máquina, que as separa de acordo com os destinos. Os envelopes são então rotulados e colocados em caixas pelos ESEs. As cartas que a máquina não consegue «ler» são rejeitadas e depois fotografadas. Pedro e os colegas recebem essa fotografia num monitor e indexam-na para o destino certo. Numa hora visionam cerca de quatro mil fotografias de cartas. «Estamos a ver flashes constantes no monitor. É muito cansativo para a vista. Eu prefiro estar lá em baixo, nas cargas e descargas, apesar de ser mais pesado.»

As pausas são manifestamente insuficientes. Legalmente, deveriam parar dez minutos ao fim de cada cinquenta minutos de trabalho, mas descansam apenas cinco em cada cinquenta e cinco. O barulho das máquinas, as luzes e o pó têm de ser somados à rapidez exigida aos trabalhadores. «Às vezes parece uma discoteca. O ar condicionado está muitas vezes desligado. Não temos janelas, aquilo parece um bunker», classifica Pedro, que refere que já foi detectada tendinite a alguns colegas.

«Eu gosto daquilo que faço, apesar de haver dias difíceis. Mas não me sinto realizado. Tenho capacidade para fazer outras coisas, não é para ser só um robô. Muitas vezes é isso que somos. O que vale é a camaradagem entre nós…»

No topo da carreira

Pedro Faroia é um dos mais velhos na sua categoria. Muitos dos colegas estão contratados a prazo. «Esses ainda estão pior do que antigamente, porque sempre havia a esperança de passar a efectivo quando se atingia o limite dos contratos. Agora as pessoas chegam aos três contratos e nunca mais os vemos. Chamam outros, fazem outros três contratos… Isso é mau para a empresa, porque qualquer pessoa que vá para lá tem de aprender tudo de novo e a produtividade não é a mesma.»

Pedro não teve nenhuma formação profissional. «Aprendemos uns com os outros. Perguntamos a um colega mais velho, se ele quiser explica como é que se faz e vamos aprendendo por nós próprios. Há sempre uma pessoa simpática que dá mais atenção.»

Um dos maiores problemas dos ESEs é a impossibilidade de progredir na carreira. «Tenho colegas que estão na empresa há três anos que já estão no topo da carreira, não podem evoluir mais. O ordenado também não vai aumentar. Só temos duas letras na nossa categoria, o B e o B1. Nos Correios vai até à J. Nunca nenhum de nós foi promovido a outra categoria.»

O Pedro e os colegas sentem que o seu trabalho não é valorizado pelas chefias. Não deixam por isso de desempenhar um papel fundamental na empresa. Esse facto fica provado quando reúnem em plenário e a central pára à espera que recomecem a trabalhar.

Soeiro Pereira Gomes falava nos trabalhadores como «rodas duma engrenagem». Pedro é uma dessas rodas, mesmo que não seja reconhecido como tal. «Não vemos perspectivas de melhorar. Uma pessoa vai passar a vida naquilo?» A escolaridade dos funcionários não é valorizada. «Já nos chegaram a dizer que para fazer aquilo não é preciso saber ler. Pelo menos temos de saber contar, por causa dos códigos», comenta.

«Sempre que vou ao oftalmologista aumento a graduação. Tem a ver com o trabalho», refere Pedro. O sistema de segurança social dos funcionários dos Correios é um dos melhores do País. Talvez por isso a administração se prepare para entregar a sua gestão a uma empresa privada. «Até agora podíamos ir a todas as consultas sem estar limitados a um tecto orçamental. Depois, se calhar, vou ter de decidir se vou ao dentista ou ao oftalmologista.»

Daqui a pouco mais de um ano, Pedro terminará a sua licenciatura, «se tudo correr bem». «Nem é das profissões com mais problemas para arranjar emprego», acrescenta. Nessa altura, deixará os turnos, o bunker e a «discoteca». E passará de robô a humano.



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